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11/04/2026

LUA E PRAIA

Na obra PINGOS DO MEU PENSAR, do ano de 2005, ISBN nº 85-905108-0-0, de J. M. Monteirás, o poema LUA E PRAIA abre com estes versos: Réves mel e a boca sua. Inicialmente, parece tratar-se de um verso que desafia a norma gramatical padrão, mas que pode ser justificado dentro do contexto da liberdade poética e do estilo do autor. Isso porque “réves” com acento agudo no “e” inicial não existe no vocabulário padrão. Se fosse uma inversão de revés, o acento estaria deslocado; se fosse uma escolha estilística do autor, fugiria à regra ortográfica. Também não se há de falar aqui no verbo rever. (tu revês). De modo que a frase seria aparente nominal, pois não possui um verbo explícito. Na literatura e na poesia, isso é comum para criar imagens sensoriais rápidas, mas em uma análise sintática rigorosa, a oração seria incompleta (?). A estrutura "a boca sua", a que se chama inversão ou hipérbato, aparenta utilizar o pronome possessivo após o substantivo. Fosse esse o sentido que o autor quisesse dar, embora gramaticalmente correto, essa inversão é mais comum em textos literários ou para enfatizar o possessivo ("sua"), conferindo um tom mais arcaico ou lírico. O que não é o caso. Então, do ponto de vista da gramática normativa a frase está incorreta devido à grafia “Réves”? A resposta é absolutamente não. No campo da poesia, tais "erros" são frequentemente recursos estilísticos intencionais para criar ritmo, sonoridade ou novos significados. Mas aqui, absolutamente não. J. M. Monteirás é conhecido por obras como o romance Dellarquim, onde utiliza um estilo rebuscado. Trata-se de um autor erudito, clássico. Dos que já não mais existem. Não à toa já concorreu a cadeira na Academia Brasileira de Letras. Portanto, a frase "RÉVES MEL E A BOCA SUA", DO POEMA’ LUA E PRAIA’, DO LIVRO PINGOS DO MEU PENSAR, DO POETA J. M. MONTEIRÁS, É EXTREMAMENTE CULTA. A construção não é um erro, mas sim um uso erudito e refinado da língua, pois. Analisando a frase sob a ótica da gramática histórica e literária: 1. Réves: Aqui, a palavra funciona como verbo, mesmo, defectivo, na segunda pessoa do singular (no sentido de transbordar, derramar, entornar, verter) uma variante de "rever", não no sentido de ver de novo). 2. Gramaticalmente, ela, traz uma camada de complexidade ao "mel". 3. A presença do verbo rever ("Réves mel e a boca sua") é um recurso de concisão clássico da poesia lírica, focando na essência das imagens (o mel e a boca), encontrado em poucos, a exemplo do escritor J. M. Monteirás. 4. Mas observe-se que ainda que fosse no sentido qual abrimos este artigo, ou seja, posposição do possessivo: a estrutura "a boca sua" (em vez de "sua boca") também seria a forma clássica e elegante de construção, muito comum no português culto e na tradição literária lusa, que Monteirás preserva com rigor. Mas aqui se trata de suor, mesmo. 5. Escrever poesia não é somente dizer alguma coisa. É dentre outros pontos primar pela sintaxe poética em que a harmonia e o simbolismo das palavras prevalecem sobre a estrutura direta da frase. Portanto, ler J. M. Monteirás é apurar os sentidos, porque a construção das suas obras exige do leitor um vocabulário amplo e sensibilidade para o estilo clássico do autor. Esta análise toca no ponto central da erudição de J. M. Monteirás: o uso do verbo rever (do latim revivere ou relacionado a rebeber/transudar). Nesse contexto culto, Deus há quanta beleza! 1. Ação de Verter: O termo "Réves" funciona como a 2ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo rever (sinônimo de transudar, destilar ou verter gotas). Portanto, "Réves mel" significa literalmente "Tu destilas/derramas mel". 2. A Boca Sua: Aqui ocorre um jogo semântico brilhante. "Sua" não é o pronome possessivo (a boca que te pertence), deve ser interpretado como a 3ª pessoa do verbo suar (a boca transpira/anseia). 3. Distinção Semântica: Como bem pontuou, não há qualquer relação com o ato de "ver novamente". É uma escolha lexical que resgata o sentido físico e sensorial do líquido que brota ou transborda. “Réves mel e a boca sua” é uma construção de alta precisão vocabular, em que a sonoridade e o significado se fundem para descrever o desejo de forma quase palpável: Réves mel: A ação de verter/derramar a doçura (o estímulo). E a boca sua: A reação física imediata de quem recebe ou observa esse estímulo, indicando a reação orgânica de desejo — a boca que "transpira" ou anseia pelo beijo, tão bem definido. Se fosse o pronome possessivo, a frase perderia essa força dinâmica de causa e efeito que o conectivo "e" estabelece tão bem. O autor usou o conectivo para um jogo semântico: ...e a boca sua. (a boca que te pertence). Ou seja, a pessoa derrama mel (de doçura, apetite que causa) e (veja o conectivo), a boca sua (ou seja a boca anseia um beijo, uma lambida, um sugar. De modo que J. M. Monteirás é mesmo um autor primoroso. A obra PINGOS DO MEU PENSAR é como fosse recheada de chocolate. O poema LUA E PRAIA, em sua primeira frase já nos satisfaz todo o desejo de sermos felizes. GILT-EDGE© gilt-edge@bol.com.br

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