https://leitura.com.br/dellarquim-L030-9788590510819

24/01/2026

O PLÁGIO INCONSCIENTE

Há alguns anos atrás (29 de julho de 2020), fiz um breve comentário sobre plágio na música para o site https://www.autoriafacil.com/plagio-na-musica/ Ei-lo: “O plágio não é vigilante à criação. Ele apreende um auditório ad hominem que quer ver o circo pegar fogo. Ele sabe que “existe um sistema de armazenamento flutuante de tudo que já foi criado, misturado com o que ainda não foi criado para o auditório externo, mas que possa muitíssimo parecer com o que se irá criar. Então, o plágio alimenta o seu auditório a descredibilizar toda e qualquer criação que não se precavenha. Porque ouvimos muitas coisas, desde a gestação, e nossos cérebros também são sistema de armazenamento, é de rigor sabermos que as nossas vontades de criar nem sempre conhecem todo o conteúdo do seu HD”. Para tudo que se irá criar há o plágio doloso e o plágio inconsciente. O plágio doloso é-se de repudiar. Já o inconsciente merece algumas palavras de receio e de precaução. Em meu blog jmmonteiras.blogspot.com escrevi quanto ao “plágio inconsciente”, que embora amenize quanto ao dolo, não exclui a culpa. Enfim, o plágio mira algum ponto do cérebro de quem trabalha com criação e sempre poderá revelar-se, quer por dolo, no caso do agente de má-fé, quer por culpa, no caso do agente desatento. De modo que somente no primeiro caso, poder-se-á moralmente imputar plágio ao agente; já no segundo caso, seja realmente um estado de inquietude e de tortura interna, ao autor que após concluir sua criação fica a remoer-se na torcida de que em algum instante não tenha sido traído por algum neurônio ingênuo, que o leve à imputação de plágio. Inconsciente, reitere-se. Qual, ainda assim, não retira o dever de reparação. O autor de boa-fé mira o ethos, apenas de pensar na possibilidade do plágio inconsciente, já se alija do afã de criação. Daí, o bom senso pede mesmo buscar as partes o entendimento, porque aquele que hoje acusa, amanhã poderá ser acusado, e o poder de criação associa-se ao plágio, não importa se doloso ou inconsciente, porque as duas formas verdadeiramente residem na tentação.” Mas como também sou autor, extendo-me nessa questão: Quanto ao plágio deve-se, ainda, atentar ao que é inspiração e o que é citação: a inspiração em determinado autor para se criar obra é uma forma de homenagem, e deve esse autor respeitar o espírito criativo do primeiro, ou seja, ainda que crie algo novo ── é assim mesmo que deve ser feito ──, não distorcer o sentido original, principalmente em caso de paráfrase. Já sobre citação, inquestionavelmente fazê-lo sempre que fizer uso de qualquer texto que não seja seu (ver as normas da ABNT), visto que a falta sugere avocar a autoria, o que não é verdade, porque é plágio doloso. E nada tem que ver com ato inconsciente. Um autor de que gosto muito é Carlos Drummond de Andrade, inspirou-me o poema A flor e a Náusea in A Rosa do Povo, 1945, para compor SPLEEN in PINGOS DO MEU PENSAR, p.29. 2005. ISBN 85-905108-0-0. Observe-se que não com o mesmo talento dos insignes, mas quanto me esforcei por manter o espírito criativo de Drummond, a raiz, o ritmo, a batida sonora do verso, Oportuno agradecer aos seus editores e/ou a todos de direito. SPLEEN Inspirado no poema A flor e a Náusea in A Rosa do Povo, 1945. Carlos Drummond de Andrade. Reabastecido o carro, melhor aquela lavadinha, não gratuita como se pense, por conta do combustível, talvez, adulterado. Quem morresse de acidente de carro não chegaria ao Céu assim: tão desligado e saudável, ao volante, entregue à sua estação de rádio, entre nuvens de sabão e arco-íris, rodeado de uns com’anjos com mangueira e de outros com pano branco nas mãos. As meias remendadas, O coração em greve, A cabeça na conta corrente... A tarde preguiçosa, Nem o Sol inclemente se aguenta. Os pedreiros dormem, Os guardas de trânsito somem. É meio-dia de segunda-feira. Se ele morresse agora... Mas quem sabe já não morreu, mesmo: Morreu lasso, Das coisas do cotidiano, De alguma doença secreta da alma. "E que morte: tantos anos vividos e quase nada escrito*. (Sentir a dor de estar passando pela vida e ver vidas comprometidas com atos ditatoriais, trazer a dor de estar passando pela vida e com nada de proveitoso ter contribuído. Esconder que em menino era cientista e queria curar todos os males do mundo com o fruto da mamoneira). Efetivamente, ainda nem ter lido todos os clássicos". Querer o mundo uma esfera de verdades, Querer o mundo imbuído de sintaxes, Querer um mundo de matemática, exato! Querer o mundo justificado mundo. “Um médico, por favor, é coração”. Roga a moça que porta um cravo branco. “Há somente eu, mas sou veterinário!” Diz um homem de preto, entanto ri, e vai, já de bisturi na mão: “Hãhãhã! Está morto! Esse não amou os animais antes dos homens. Deus relevará?” Ele morreu de quê? - pergunta o coveiro ao padre. “Não sei. Nem quis saber. Apenas lhe dei a extrema unção”. “Morreu de morte, ora!!!” Gritam uns homens que passam, uns de negro, outros de fogo. E ouve-se mais vozes, e as por último vêm assim: “Nunca plantou uma flor!” “Apoderou-se de verso de morto insigne!” “Não devemos enterrá-lo, pois!” “Ninguém leva bens materiais!” “Deus é bom, relevará!" Mas em seguida olham para o corpo estático com cara de pena: "Vai arder conosco!" “Então é melhor comprarmos mais!” “Voltaremos daqui a pouco!” “Traremo-lhe também um caixão vermelho!”. Se morreu de preguiça... De melancolia... De ressaca... De infarto... De alegria... não sei. Nem sei se morreu mesmo nesse dia. Deixasse para morrer naquela tarde de domingo em que Ronaldo encobriu o goleiro, correu para os braços da Fiel e ouviu de São Jorge, que um dia venceu o dragão, que o nove passaria a ser fenômeno e seria aplaudido por todos os demais santos, pela eternidade do futebol?... Até que me trasnportei para ele e pensei que morreu num dia chato, mesmo, em que se morre do vazio: da falta de inspiração (que é a falta de tudo para o autor), estado em que se morre só. Sorte sua que agora deva se ver do alto da sua satisfação a contemplar os que o derrubaram. Talvez, rasteiras pelas costas. Quiseram pisar em mim, também, Mas não sou pessoa de se deixar vencer, Exceto pela luta lídima da boa argumentação. Alguns aderem ao auditório, Sábios entendem a Filosofia. Ninguém entende bem a cabeça de poeta. Nietsche foi filósofo ou poeta? Estes eram degraus para mim. Servi-me deles para subir e precisei então passar por cima deles. Mas pensavam que queria aquietar-me sobre eles** Mas não é estranho que eu veja mortos apolíticos ressuscitando uma a uma as células, cadeias de gordura ganhas em supermercados e salões de orfir, de raposas velhas e barrigudas, espalhadas pelas ruas por onde passo, a se desintegrarem ante bloqueadores de odores sob solas de sapatos. Afastai as lamúrias! Bem sabeis vós que voz muda o sentido dos mudos. Um homem estende a mão, não pede esmola, filosofa: “O tão por mais intenso não muda minha cara feia, Eu, então, substantivo, só eu mesmo me modifico: Matei o passado, eu sou o futuro, Eu sou um girassol, mas o sol não me vê, Bailarina não combina com instrumento mal tocado, Impera misturar poesia com prosa e chapéu com circunflexo... Quantos mendigos que amanhã alimentarão os já muito abastados?!...”. Então, o homem, como ressuscitasse por conta do susto provindo do toc! toc! no vidro do carro, e das gargalhadas de uma coorte moteja que se curvara ao cansaço dele, tendo-o deixado cochilar por alguns minutos, antes de retomar sua rotina de chofer, notara-me contemplativo no carro de trás a notar em sua face a solidão, e imaginar com quem ele sonhara ou se sonhara ainda conhecer alguém que não ferisse novamente seu coração. Foi quando passou uma flor e lhe sorriu. *No original de Drumond: Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado **Nietsche in Crepúsculo dos Ídolos ou Como Filosofar com o Martelo. Turim. 1888.

Nenhum comentário:

Postar um comentário