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05/04/2012

A ADORÁVEL SÃO PAULO NO OUTONO

05.04.2012

Ontem, eu caminhava na Avenida Paulista, sob o sol matinal do nosso lindo outono, quando resolvi me sentar no murozinho do espelho dágua do MASP. Sem querer, escutei dois nerds sobre suas últimas e maravilhosas façanhas tecnológicas. Eles, sem dúvida, jogam o classicismo ao vento e se tornam românticos em seu ideológico tempo.

Não sei por que, mas me remeteram a uma piada em que um cidadão, daqueles bem machistas,cansado dessa modernidade, cujas mulheres antagonicamente são tão independentes que já nem querem usar aliança, por exemplo, resolveu criar, em laboratório, a sua mulher ideal, tipo do século XIX, ainda cheia de amarras, submissa.

O dito cidadão fez uma moça de pele alva, meiga ou dócil, sensual e dotada de um par de algo naturalmente firmes e róseos... mas acima do peso para os padrões de alguns de hoje, tipologia digna de uma tela de Ingres. Mas ele esqueceu-se de que os chips são do século XXI. Agora, ela obedece tanto a ele que quase o mata asfixiado, sempre que lhe oferece os serviços robóticos. Possivelmente, precisasse de um desses talentosos nerds por prestar-lhe serviço de ajuste. Pensei.

Já quanto aos emblemáticos e talentosos nerds, pensei ainda que possivelmente não soubessem que acima das nossas cabeças estivesse a maravilhosa obra “Angélica Acorrentada”, da arte francesa, em óleo sobre tela, de 1859, do mesmo Ingres. Jean-Auguste-Dominique Ingres. Não raro no entender da maioria, paradigma quebrado pelo episódio conhecido como Bra-Burning, ou A Queima dos Sutiãs, de 07 de setembro de 1968.

Eles se foram, a ajustar os seus óculos, enquanto desviei o olhar para o Parque Trianom e contemplei o que aí ainda nos resta da Mata Atlântica, pedaço rodeado por tóxicas fumaças de fumantes mal educados.

Levantei-me e segui adiante, por tomar um café expresso, cujos grãos já torrados e espremidos, mas ainda resistentes num cone de vidro, pareciam mesmo terem recebido mais duas outras e novas sentenças de morte: serem triturados por uma outra máquina elétrica para, por fim, engolidos pela derradeira, a mais malvada,o humano.

Hummm! Deliciei-me com a bebida tupiniquim. Entrei na Livraria, vi lançamentos recentes (não abro, não folheio, não leio orelhas de livros quando estou criando; para evitar o que chamo de plágio inconsciente (ver neste mesmo blog um artigo meu com esse nome), que é traiçoeiro e parece revelar-se por demais sutil quando pretende contrariar o imperativo categórico, doutrina de Immanuel Kant. Busco o melhor resultado).

Na Avenida Paulista pássaros ainda cantam, flores ainda tentam embelezar os canteiros, a lembrança do auge cafeeiro ainda perdura nos últimos casarões, quer em algo já aceito socialmente como new lifestyle, em que mulheres independentes e modernamente trajadas empinam-nos seus narizes, quando não nos acham atraentes, quer no que se ostenta e me levou às lágrimas: um pé de café frutificando, bem em frente ao número 2001. Esse não deixemos, mesmo, ninguém condená-lo a uma ou tantas mortes. Com a graça divina, só a literatura mata e ressuscita.

Na Avenida Paulista a beleza é muito mais intemporal, está viva em tudo: no museu, mas também aos transeuntes que a contemplam, quer seja nas mulheres mais empoderadas à figura do macho, quer seja nas mais modernas e denodadas a outros quereres, ou nas torres altas e leves, ou simplesmente num pé de dar boa bebida.

Viva o outono paulistano! Que chega menos de um mês após comemorarmos o Dia Internacional da Mulher.

Agora, convido-te, ó mulher lindíssima, que passara de blazer azul Royal, para tomarmos um café. *** Ah, ainda ontem para fugir da chuva fria, amparei-me na marquise do Conjunto Nacional, enquanto aguardava o Uber. Não é que ela passou de novo, desta vez na minha imaginação! E ganhou esta canção: DE PEITO ABERTO

De peito aberto
Como quem espera chuva
Na porta de um bar estava eu

De peito aberto
E então chegou uma chuva
Levando a deusa pra Morfeu

A passos largos
Entre carros
Caminhando era canção

Nos canteiros da avenida
Colhi-lhe as flores mais bonitas
Mesmo assim, me disse "não!'

Passe, mais uma vez, na madrugada
As horas em que os poetas criam
Na mesma porta, do mesmo bar

Deixe, eu peço a Deus mande mais chuva
Para regar os mil canteiros
Que guardo para lhe ofertar.

De peito aberto...




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